Mensagens apontam que Vorcaro revisava reportagens do Metrópoles antes da publicação
Mensagens apontam que Vorcaro revisava reportagens do Metrópoles antes da publicação
Levantamento do UOL identificou ao menos 14 textos enviados previamente ao ex-banqueiro; 11 teriam sido alterados após solicitações dele. Relação com a direção do portal se estreitou no mesmo ano em que o Master firmou contrato publicitário de R$ 20 milhões.
Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro apontam que ele mantinha uma relação direta com a direção do Metrópoles e tinha acesso antecipado a reportagens sobre seus negócios. Segundo levantamento publicado pelo UOL, textos eram encaminhados a Vorcaro antes de irem ao ar, e pedidos de alteração feitos por ele eram atendidos.
O material também indica que a interlocução não se limitava à revisão de informações. De acordo com a apuração, a direção do portal sugeria conteúdos que poderiam favorecer os interesses comerciais do Banco Master, instituição controlada pelo empresário.
Ao menos 14 reportagens teriam sido enviadas previamente ao ex-banqueiro. Em 11 delas, os textos foram modificados após solicitações de Vorcaro. O levantamento aponta ainda que duas reportagens foram publicadas a pedido do então dono do Master.
Relação se estreitou em 2024
A comunicação direta entre Vorcaro e Lilian Tahan, CEO do grupo Metrópoles, foi estabelecida em 2024. Naquele mesmo ano, o Banco Master fechou um contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o portal.
Nos meses seguintes, segundo as mensagens analisadas, Vorcaro passou a receber antecipadamente reportagens relacionadas ao banco e a outros assuntos de seu interesse. A troca de mensagens também mostra que ele era consultado sobre o conteúdo de determinadas publicações e podia solicitar mudanças antes da divulgação.
Um dos registros citados na apuração é de abril de 2025, quando Lilian Tahan encaminhou ao empresário um perfil sobre ele próprio. Na ocasião, a executiva escreveu: “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”.
A mensagem evidencia o grau de acesso concedido ao empresário antes da publicação do material jornalístico e levanta questionamentos sobre os limites entre a checagem de informações com fontes e a interferência no processo editorial.
Direção do portal apresenta justificativa
Questionada sobre o envio antecipado de textos a Vorcaro, Lilian Tahan afirmou que consultar fontes sobre o conteúdo de reportagens é um procedimento que adota com pessoas de diferentes setores.
“Checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresariais, da política e do Judiciário”, declarou, conforme o relato publicado pelo UOL.
A justificativa apresentada pela executiva coloca em discussão uma distinção importante no jornalismo: ouvir a fonte para verificar informações e conceder a ela a possibilidade de influenciar o texto antes de sua publicação são procedimentos diferentes.
A checagem de dados com personagens citados em uma reportagem faz parte da rotina jornalística. Já o envio prévio de textos completos e a realização de alterações a pedido de pessoas diretamente interessadas no assunto exigem transparência sobre os critérios editoriais adotados.
Contrato publicitário amplia os questionamentos
A coincidência temporal entre o início da interlocução direta e o contrato publicitário de R$ 20 milhões firmado pelo Banco Master com o Metrópoles acrescenta uma dimensão comercial ao caso.
Os registros descritos na apuração do UOL apontam para uma relação na qual interesses empresariais e decisões editoriais teriam se aproximado. A extensão dessa influência e as circunstâncias de cada alteração, porém, precisam ser avaliadas à luz do conteúdo integral das mensagens e das respostas dos envolvidos.
O caso reacende o debate sobre a independência editorial dos veículos de comunicação, especialmente quando empresas que mantêm contratos publicitários relevantes também têm interesses em reportagens publicadas por esses mesmos veículos.
A questão central não é apenas se uma fonte foi consultada, mas se houve preservação da autonomia jornalística na definição do conteúdo, do enfoque e da publicação das matérias.
Com informações do UOL.



